Paulinha,
Fico feliz de ficar com
a carta 03, o número três é meu número da sorte, o da minha numerologia e o
número perfeito pros antigos. Ele representa o início, o meio e o fim. Gosto
dele porque nunca sei em qual momento da história da humanidade nós deixamos de
entender a diferença entre início, meio e fim. Talvez a gente só tenha
escolhido ignorar para fingir que não existem limites muito definidos que
separam esses três momentos.
No início da sua
partida eu comecei um diário de sonhos. Meu homeopata disse que é importante
anotar os sonhos, é como um diário de bordo. Quando ele disse isso, Paula, eu
fiquei com tanto medo, me subiu um arrepio... Acho que ele tentou passar essa
mensagem de uma forma tranquila ou bonita, mas eu só consigo pensar: se o
caderno de sonhos é um diário de bordo, o que é o nosso naufrágio? Sempre tive
medo desses sonhos, das coisas que se encaixam na minha cabeça e decidem não
sair mais, talvez por isso eu tenha decidido te escrever apenas cartas e não mensagens
diárias como havíamos combinado. Nossa cabeça cria pelo menos três coisas
perigosas por dia. Fellini praticamente enlouqueceu mais com seu diário de
sonhos, né? É disso que eu tenho medo, achar o naufrágio dentro da gente,
sabotar o navio para vê-lo afundando.
Vivo o meio da sua
partida agora, e apesar de parecer uma carta melancólica ou suicida, é apenas
mais um registro de saudades, de drama, de sonhos. Acho que saudades, dramas e
sonhos são as três coisas perigosas que nossa cabeça cria diariamente. É
importante que eu escreva isso porque acabei de viver o drama de ver aquele
filme meio bobinho “As Vantagens de ser invisível”. Já viu? Senti a necessidade
de te escrever logo em seguida porque acho que ele me fez entender a sua
relação com despedidas e a minha possível teimosia em ignorar todas elas. Como
é fácil se distanciar e impossível se despedir, não? Acho que pra quem vai e
não volta é sempre mais fácil do que pra quem fica e não pode ir.
Espero o final da sua
partida então, não só pelas saudades e pelo carinho, mas para que esse
entendimento sobre despedidas seja possível em mim, mais real. Acho que a vida
fica muito mais cômica com partidas, como términos de namoro e a sequência que
as pessoas dão a suas vidas pós término. Não posso criticar muito a continuação
da vida após amor dos outros, se eu mesmo às vezes, me coloco em queda ou em pingue
pongue, pulando de coração em coração.
Lembre-se sempre: não
importa qual seja a sua decisão e o seu naufrágio, não suje o carpete.
Queria que tudo fosse
tão fácil quanto é gostar de ti. Sigo então sem medo da morte, apenas com medo do
sem você.
PS: Tente reler tomando
sorvete de creme com um cálice de Limoncello por cima, talvez ajude.
mas e sem nao tem naufrágio, mas só um chegar ao outro lado.
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