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terça-feira, 1 de março de 2016

Parasitas comem tomilho

Seppuku (切腹, lit. "cortar o ventre"?), vulgarmente conhecido no ocidente por haraquiri ou haraquíri (腹切 ou 腹切り?),[1] refere-se ao ritual suicida japonês reservado à classe guerreira, principalmente samurai, em que ocorre o suicídio por esventramento.”


Achei essa definição na internet depois de tudo. Resolvi procurar sobre enquanto a carne tava cozinhando. Você lembra do quanto gostava desse cozido? Acho que por isso lembrei de você no momento exato em que joguei um pouquinho de tomilho. Você sempre dizia: “você põe tomilho em tudo” e ria, ria…mas sabia que essa era a única carne que eu podia fazer e o tomilho o único tempero que eu sabia usar.

Eu liguei para sua mãe hoje, parece que o problema na coluna dela atacou de novo. Ele é assim, igual a você, de lua. Quando resolver complicar… Ela fingiu um bom humor mas quis desligar rápido, não sei se pela dor física ou pela dor que era me ouvir. Ela sempre foi tão boa pra gente.

Eu já pensei que você fosse muito rude, meio arrogante e metido a saber de tudo, mas hoje eu entendo que era só uma reação desesperada para tentar se salvar. Você não cabe no mundo, e você me dizia isso sempre. “Amor eu não consigo as vezes, dói, parece que tudo me aperta, tudo me fecha. Só queria que parasse.” Nos nossos últimos dias eu só te conhecia assim, desesperado ou com ódio. Não ódio de mim, isso eu sabia bem, mas eu que recebia toda a carga: “Parasita, entendeu? Você é uma merdinha de uma parasita!”. Quando você batia a porta e ia embora eu arrumava a casa como se nada tivesse acontecido, tomava um banho, rezava um pai nosso, chorava um pouco e tentava dormir. Confesso que muitas vezes pensei em trocar a fechadura, sumir. Eu não cabia em você. 

Quando você começou com os remédios eu fiquei mais aliviada, não sei, parecia que pela primeira vez você estava cedendo e procurando uma saída. Aí fomos comer no Severina e por achar que a carne tinha sal demais você criou uma discussão com o garçom e para não meter a porrada nele saiu do restaurante chutando a mesa. Eu fiquei ali, bebi umas caipirinhas, paguei minha conta e fui para casa, sem você. Claro que você não estava lá, você vivia como lobisomem nessas suas noites de fúria, só sumia e ia vagando na lua.

Joana veio aqui ontem, tomou um café e ficou provocando risos com aquela gargalhada dela, depois ela ficou em silêncio e disse que se arrependia de ter me apresentado a você, que eu não merecia. Eu entendo o desespero dos outros, em geral cheio de culpa, para procurar soluções pro sofrimento dos amigos, mas foi uma frase absurda. Claro que eu queria ter te conhecido, eu que não te merecia, o mundo… Ainda mais naquele dia todo lindo cheio de sol e frio em que nos conhecemos, eu não parava de falar de nervosa e você só ria enquanto tragava o cigarro. A gente não sabia que ia se beijar, se casar, morar juntos, mas a presença do outro deixava a gente daquele jeito. A gênesis de tudo é sempre tão bonita né? A gente diz que se faça luz e a luz se faz, mas no final um irmão sempre vai matar o outro. 

Você sabe o quanto eu estava cansada de tudo, você sabe, mas já não ligo para seu egoísmo, para a forma que você achou para resolver sua vida. Só queria dizer hoje que a vida não se resolve, amor. A vida é um eterno problema e nós somos a ferida aberta nesse corpo imortal, o que nos diverte é justo a eternidade, as bactérias que passam, os parasitas, como você dizia. Nós, parasitas, servimos para divertir enquanto a maioria vai morrendo sem saber. 
Mas sejamos sinceros, você não procurou nenhum caminho, você parou no meio dos remédios, desistiu em duas semanas de terapia. A única coisa que me culpo até hoje é de ter sido contaminada pela sua ansiedade, de resto, eu acho que tudo correu como devia.

Não penso em você quase nunca, acho que escondi você na minha memória por medo de reviver a cena. Aquele momento no qual você berrou comigo as mesmas palavras de sempre, os mesmo “Parasita” saíram da sua boca e eu, pela primeira vez, reagi. Eu taquei um prato no chão perto do seu pé e disse que não aguentava mais, não conseguia passar por aquilo, que tudo doía, que meus ossos rangiam sempre que você chegava em casa, que eu queria filhos, que eu queria foder mais, que eu queria você. Você ficou tão assustado que só começou a chorar muito, mas chorou tanto que caiu no chão. Te abracei um pouco e fui na cozinha pegar um copo de água e voltei dizendo que aquilo precisava acabar, mas me interrompi porque você já estava de joelhos com a faca na mão sorrindo para mim, eu deixei o copo cair e você enfiou ela na barriga e rasgou para o lado esquerdo. O sangue saiu calmo, sem desespero e eu agi da mesma forma; peguei você coloquei no meu colo e te deixei ir enquanto fazia aqueles carinhos nos seus cachos. Eu sabia que não era para ligar pra ninguém, que você precisava daquilo. Soube disso quando reconheci aquele seu sorriso sincero no meu colo, enquanto sangrava, da mesma forma que você sorriu no casamento. Depois liguei para ambulância, pros seus pais e sentei no sofá esperando eles chegarem enquanto olhava sua barriga aberta. Queria poder fuçar, abrir bem aquela ferida para ver se ainda restava alguma coisa sua ali, mas eu sabia a resposta; como você não cabia em lugar nenhum, nem dentro de si, aquela faca era sua alforria. Livre. 


Como disse não costumo pensar muito em você, mas lembro sempre quando pego o tomilho, corto a carne e limpo o sangue para cozinhá-la. 

domingo, 3 de maio de 2015

05

Paulinha,

Estou ouvindo Chão de Giz nesse momento e nem gosto do Zé Ramalho. Sabe o que isso quer dizer? Que estou ficando cafona, que estou apaixonado. Lembro que você pediu para te avisar quando isso tornasse a acontecer e está começando a acontecer. Você acha que eu me apaixono muito facilmente, Paula? É coisa de câncer no mapa, não?

A vida tem tomado uma forma mais tranquila e fluida, onde eu posso procurar descansos, diversões e paz com a mesma rapidez que respiro. Isso me deixa inquieto, isso de ter muitas opções, muitos caminhos e não saber ao certo para onde e como ir. Sou um careta tentando se libertar.

Mamãe agora namora sabia? Ela me prova a cada segundo que o amor tem uma idade sim, aquela idade congelada entre os 12 e 16 anos, onde o belo é o olhar do outro, o espírito do outro, a vida do outro. Um eterno Madrigal Melancólico extremamente carinhoso e suave que contagia tudo ao redor... Não disse que estava ficando cafona? Mas acho que não é nem o amor e a paixão, é a felicidade do ser e estar bem sozinho, de ver que as coisas se ajustam antes mesmo que percebamos. Leio agora minha primeira carta e aquilo de termos a paz que sempre esperamos se confirma hoje. Somos paz.

Sempre me apaixono por aqueles me desarmam, Paulinha. Foi assim com você e está sendo assim com esta pessoa de agora. Uma pessoa que só não é mais bonita que o próprio nome, que o próprio ar. Acho que me apaixonei pela paixão com a qual ela fala da vida, dos ídolos, deusas e passado. Ela tem beleza até nos espaços vazios.

Tenho lembrado muito de meu pai. Sempre me lembro do meu pai pela música. Acho que a forma com que ele passava horas me apresentando/explicando músicas me deixou a única e a melhor boa lembrança dele. Por isso que Caetanos, Bethanias, Elzas, Gals e outros são tão importantes para mim; eles fazem uma ponte. Já disse e repito: você iria amar conhece-lo.

Ando me sentindo preso a um futuro muito certo e muito fácil. Não tenho nada a esperar porque as coisas já estão definidas e prontas, só preciso deixar solto. Fico inquieto comigo por me achar doido em não se preocupar mais em estar ou não namorando, estar ou não estudando, estar ou não caminhando. Prometo que vou sair dos roteiros, Paula...prometo.

Falo de você o tempo inteiro e te invoco sempre para você banir o iceberg do meu naufrágio. Meu feitiço de proteção é você e por isso assino todas essas cartas da mesma forma:


Queria que tudo fosse tão fácil quanto é gostar de ti. Sigo então sem medo da morte, apenas com medo do sem você.

quarta-feira, 8 de abril de 2015

03

Paulinha,

Fico feliz de ficar com a carta 03, o número três é meu número da sorte, o da minha numerologia e o número perfeito pros antigos. Ele representa o início, o meio e o fim. Gosto dele porque nunca sei em qual momento da história da humanidade nós deixamos de entender a diferença entre início, meio e fim. Talvez a gente só tenha escolhido ignorar para fingir que não existem limites muito definidos que separam esses três momentos.

No início da sua partida eu comecei um diário de sonhos. Meu homeopata disse que é importante anotar os sonhos, é como um diário de bordo. Quando ele disse isso, Paula, eu fiquei com tanto medo, me subiu um arrepio... Acho que ele tentou passar essa mensagem de uma forma tranquila ou bonita, mas eu só consigo pensar: se o caderno de sonhos é um diário de bordo, o que é o nosso naufrágio? Sempre tive medo desses sonhos, das coisas que se encaixam na minha cabeça e decidem não sair mais, talvez por isso eu tenha decidido te escrever apenas cartas e não mensagens diárias como havíamos combinado. Nossa cabeça cria pelo menos três coisas perigosas por dia. Fellini praticamente enlouqueceu mais com seu diário de sonhos, né? É disso que eu tenho medo, achar o naufrágio dentro da gente, sabotar o navio para vê-lo afundando.

Vivo o meio da sua partida agora, e apesar de parecer uma carta melancólica ou suicida, é apenas mais um registro de saudades, de drama, de sonhos. Acho que saudades, dramas e sonhos são as três coisas perigosas que nossa cabeça cria diariamente. É importante que eu escreva isso porque acabei de viver o drama de ver aquele filme meio bobinho “As Vantagens de ser invisível”. Já viu? Senti a necessidade de te escrever logo em seguida porque acho que ele me fez entender a sua relação com despedidas e a minha possível teimosia em ignorar todas elas. Como é fácil se distanciar e impossível se despedir, não? Acho que pra quem vai e não volta é sempre mais fácil do que pra quem fica e não pode ir.

Espero o final da sua partida então, não só pelas saudades e pelo carinho, mas para que esse entendimento sobre despedidas seja possível em mim, mais real. Acho que a vida fica muito mais cômica com partidas, como términos de namoro e a sequência que as pessoas dão a suas vidas pós término. Não posso criticar muito a continuação da vida após amor dos outros, se eu mesmo às vezes, me coloco em queda ou em pingue pongue, pulando de coração em coração.

Lembre-se sempre: não importa qual seja a sua decisão e o seu naufrágio, não suje o carpete.

Queria que tudo fosse tão fácil quanto é gostar de ti. Sigo então sem medo da morte, apenas com medo do sem você.


PS: Tente reler tomando sorvete de creme com um cálice de Limoncello por cima, talvez ajude. 

quarta-feira, 4 de março de 2015

01

Paulinha,

Aconteceu tanta coisa depois que você foi embora... Foi embora mesmo? Essas idas com prazo de validade me confundem, porque a pessoa sempre volta outra e a que foi talvez suma um pouquinho. Sorte que mudança, com e em você, sempre foi a melhor coisa.

Quando você saiu eu estava começando um romance e uma doença. Os dois acabaram de forma tranquila e até mesmo engraçada, só deixaram umas marquinhas, tipo fuligem que sai rápido, mas te deixa sujinho. É que esse romance entrou no carnaval e o carnaval despertou dores no coração dele que já não existiam mais no meu. Será que um dia as pessoas vão aprender a ir embora sempre pra frente e não pro passado?

Não é difícil encontrar outras festas e “zoeiras”, mas é diferente. As nossas festas tinham um endereço diferente que servem até mesmo para justificar a frase do Serguei “O rock sou eu.”. Nós éramos a festa. Por isso é que fico meio assustado quando eu rio do nada e não tem você do lado para entender aquele sorriso que não quer dizer nada. Você faz falta em mim.

Ainda fico bêbado e faço parte de grupos louquinhos pelos dias e noites da cidade, mas não tem você para entender os pesos, as energias negativas, para bloquear os caretas... Como eu seguro isso tudo sozinho, mulher? O mundo que já era estreito fica mais apertado sem você.

É estranho a cada sonho, a cada frase bonita de livro, cada farra e loucura não ter você como primeiro recurso para contar, para viver. Aí eu acabo esquecendo tudo isso só porque você não está mais do meu lado como estava quase todo dia, toda ligação, toda mensagem. Eu culpo seu crescimento, sua genialidade, sua leveza com a vida e com o mundo, por toda essa distância.

Esse ano, mesmo começando sem você, vai ser tão incrível, Paula. Você sente isso quando olha pra janela no final da tarde tomando aquele chazinho que te deram aí, não é? Não parece que tudo aquilo que a gente viveu e que nos aporrinhava vai se transformar na paz que a gente quiser? O final desse recente e prematuro romance fechou as portas, para sempre, daquele amor mais antigo e de difícil fim, o que é lindo. O início desse ano me traz um projeto de pesquisa tão incrível que pela primeira vez na vida eu me sinto inteligente. Talvez só você entenda como é importante para mim me reconhecer inteligente...

Não somos amigos porque nunca brigamos, mas porque sabemos que não existe um terço de disposição para brigarmos por qualquer (in)diferença no outro. É aí que eu sinto saudades da sua voz, de quando eu não entendo o que você fala porque você está rindo muito. Ou quando você revira os olhos pedindo para que alguma entidade te tire de uma situação insuportável.

Você está feliz e eu mais ainda. Mesmo com você longe fico feliz em sentir essas saudades porque percebo que eu não preciso de você e nem você de mim, e justo por isso somos indispensáveis para o outro.

Queria que tudo fosse tão fácil quanto é gostar de ti. Sigo então sem medo da morte, apenas com medo do sem você.


domingo, 28 de dezembro de 2014

Caixa Preta



1-Uma caixinha de fósforos
2-Uma borboleta morta
3-Um caco de taça de champagne
4-Uma sempre-viva
5-Um caderninho em branco

São cinco coisas que eu faço questão de te devolver. Elas foram suas por algum tempo, mesmo que você tenha tomado à força algumas delas. Como no caso da caixinha de fósforos, que você tomou da minha mão quando nos conhecemos. Eu estava andando com a Ana e você surgiu do meio de umas barracas de bebida baratauma aparição vinda do escuro da noite; tão bonito e confuso quanto a ausência do sole me cutucou perguntando se eu tinha fogo. Achei meio estranho isso de me pedir fogo sem nem falar um “com licença”, mas peguei uma das caixinhas de fósforo que tinha comprado pra minha coleção e entreguei na sua mão. Você acendeu um cigarro e começou a puxar assunto com nós duas, algo sobre seus amigos terem ido embora mais cedo e você estar procurando companhia pra ficar até mais tarde. Eu deveria ter te ignorado no momento em que você começou com esse papo estranho e seguido pro bar com a Ana, mas não, eu tava achando o máximo ver seus olhinhos perdidos, apertadinhos; você sorria por nada, sorria de bobeira.
Depois desse dia, que obviamente você me beijou e falou como achava o máximo eu fazer coleção de caixinhas de fósforo, você decidiu que iríamos ao cinema. Você sempre decide as coisas porque a consequência delas nunca te atinge. Fomos ao cinema. Nem consigo lembrar muito bem sobre o que era o filme porque era tão chato...e eu estava muito preocupada em ficar olhando pro seu rosto, na forma largada que você se sentava e ficava batendo os dedinhos no braço da poltrona enquanto os trailers passavam. Você passou o braço por trás de mim deu por missão cumprida; toda a atenção que você achou que eu precisaria seriam resolvidas com aquele braço. Você viu o filme inteiro.
Na saída do cinema eu fiquei sorrindo pro chão pensando em como eu era boba em ficar boba com um casinho de dois dias e um cinema. Aí você me puxou pela cintura, me deu um beijo e arrumou meu cabelo de lado. Disse que achava divertido ver uma garota com gravata borboleta e eu achava o máximo ser a sua garota divertida. Andamos mais alguns passos e você pegou uma borboleta morta no canteirinho de uma árvore e deu na minha mão. Foi o presente mais tétrico que eu já tive, mas foi o único que você conseguiu me dar. Ainda ficou uma meia hora explicando sobre a anatomia, modo de viver e comida predileta das borboletas. Eu fingi um sorriso enquanto olhava pro bichinho morto comparado à minha gravata.
Pulando a ordem da lista você poderia dizer que já me deu outro presente sim, como é o caso dessa sempre-viva. Mas não considero um presente porque naquele dia no parque, eu a vi na lojinha de plantas e fiquei apaixonada. Em um ato de violência contra mim e de heroísmo pra você, você roubou a plantinha, me puxou pra esquina e me entregou. Não sei como aceitei o roubo e o prazer da adrenalina naquele dia.
Depois do cinema você ficou uns três dias sem dar o menor sinal de vida até me ligar na noite do quarto dia, dizendo que na sexta você comemoraria seu aniversário com uns amigos na casa de um tal de Isaac. Fiquei animada com a possibilidade de fazer parte de eventos íntimos da sua vida.
Como você dizia que gostava de escrever, eu encomendei pela internet um caderninho muito fofo para te dar de aniversário. Esse caderninho. Ainda bem que ele chegou só hoje e não no dia da festa, porque agora percebo como é surreal você repetir os erros do mundo de uma forma tão despreocupada; como gostar de escrever e não de ler.
Outro erro batido e clichê foi seu aniversário na casa do Isaac, um menino muito rico com o coleguinha abusado (você) que usa a casa e a amizade para construir um palácio de loucuras. Cheguei atrasada e você me recebeu na porta. Tentei justificar, olhando pro chão, como o seu presente não tinha chegado ainda, mas que assim que chegasse você iria gostar bastante. Acho que você não ouviu uma palavra do que eu disse porque me cortou no meio da frase e me apresentou uma loirinha de propaganda de margarina como “essa é a Carol, a minha ex”. A tal Carol sorriu para mim como se eu fosse a câmera da propaganda de margarina e eu fiquei sem reação... Eu deveria fazer o que com a-Carol-loira-bonita-ex-do-bem? Ela me deu um abraço e você me puxou para apresentar a sua “galera”, que não deu a menor bola para a minha presença.
Enquanto vocês estavam super chapados o Isaac ficou conversando comigo e se mostrando o anfitrião mais fofo possível. Alguma coisa tinha que estar razoavelmente boa naquele lugar.
Foi mais ou menos lá pela meia noite que Isaac decidiu abrir umas garrafas de champagne para brindar seu aniversário (o carinho de Isaac por você é evidentemente uma paixão, mas você ignora). Todo mundo recebeu uma taça repleta daquela bebida meio metida quando você, já mais louco que o normal, decidiu que queria brindar comigo e Carol juntas. Sua força quebrou a taça na minha mão e me deixou encharcada. Enquanto você e Carol riam de bêbados da Carrie, a estranha, Isaac correu comigo pro banheiro para me ajudar. Como cortei meu dedo com esse caquinho, resolvi te entregar essa lembrança da sua enorme preocupação com os outros.

Fui embora imediatamente e você recebeu a notícia com um “ah tá...que pena, achei que você fosse dormir comigo”. Você e a maioria da sua galera deve pensar que é um escândalo eu ficar com raiva de você já que não fui “traída”, nem falaram mal de mim, mas talvez vocês não alcancem os cuidados e preocupações que cercam o mundo que vive fora de vocês. O que começa mal, sempre termina mal. E como todo desastre tem sua caixa preta, como todo drama tem presságios e avisos; te devolvo nessa caixinha todos os sinais e provas de que nós nunca existimos e nem vamos dar certo. Não atendo mais suas chamada, mas não por te achar uma pessoa errada, mas é que seu destino é diferente do meu. Eu não sei fazer propagandas e nem viver em palácios. 

domingo, 17 de agosto de 2014

Por Parte de Pai



-Mãe, a minha relação com o meu pai só vai melhorar quando ele morrer, e isso já está para acontecer.

Quando eu disse essas palavras em uma conversa com minha mãe, nós não sabíamos que meu pai estava mal de saúde. Foi profecia.

Todo mundo sempre soube, e hoje faz questão de esquecer, como era difícil a convivência entre Camilo e Luiz. O primeiro era criança e o segundo era um monstro. Um monstro literário, um monstro acadêmico, um monstro de amigo...mas não era fácil dividir o mesmo teto desse monstro. Porque o que mais nos incomoda na monstruosidade dos outros é aquilo de ruim e sedutor que ela pode despertar em você.

Minha mãe sempre diz que falar cura, mas falar sobre meu pai é tão difícil quanto era falar com ele. Todo mundo tinha a mesma quantidade de medo e admiração por ele. Não era fácil. Não foi fácil. Porque até mesmo nas relações conflituosas, de inimigos ou amantes, existe uma ponte ou um caminho de rápido acesso entre as partes; com a gente esse percurso não se fazia visível.

Lembro de momentos felizes, bonitos, doces, só não lembro de um pai. Lembro bem de um homem difícil que dormia, trabalhava, era conhecido e genial. Momentos felizes servem para alguma coisa?

A morte do meu pai trouxe mais que uma boa relação, trouxe luz, trouxe conhecimento. Eu consegui sentir alívio, prazer, tristeza e tudo o mais o que eu não me permiti sentir na sua vida. Hoje sei quem foi Luiz. Continuo sem saber quem foi meu pai, talvez eu não possa saber...

Eu o deixei morrer sem perguntar se ele realmente me amava, se ele sentia orgulho de mim. Só via raiva, cobranças... Só fui ver meu pai depois da sua morte, no espelho, no meu olho, na minha música. Percebi que eu estava me tornando aquilo que neguei, que não entendi. Metade de mim quer ter o tamanho dele e a luz que ele guardou, a outra metade quer se rasgar por ser meio monstra, meio rude, meio só. A monstruosidade não é genética, é de alma pra alma.


A morte pra mim nunca foi início, nem começo de nada, apenas um reflexo em uma poça de água parada e escura que fica sorrindo sorrindo sorrindo...até que some. 

sábado, 16 de agosto de 2014

Desabafo. Pula uma linha, parágrafo.

Como é que funciona essa sua cabeça? Onde é que eu te encontro, se é que um dia eu te encontrei?

O que é que tem de tão angustiante no final de um copo que te faz evitá-lo? Eu paro e rio pensando na forma ridícula com a qual você conduz as coisas para que eu as decida. Quem decide realmente, qualquer coisa, é esse Deus aí que não existe e nem quer saber de ninguém. Nós, conversamos, entendemos, pensamos, construímos. Decisão não existe. Acho que é pelo fato de você achar que coisas decididas existam, que as certezas lhe faltam.  

Você não se sufoca com a quantidade de coisas com as quais se alimenta, se nutre, se engole? Tem tanta energia que você consome que a gente cansa só de olhar essa excitação falsa que você interpreta. Você ainda se aguenta? Você mastiga tanta coisa que acaba não sabendo o gosto de nada, desconhece o sabor da permanência, o prolongar dos tons.

Antes eu me perguntava como era possível você construir e terminar qualquer coisa com muita facilidade, mas hoje é tudo tão claro, que chega a ser quase falso. Você não constrói nada, logo, aquilo também não termina porque nunca existiu, nunca foi. Espero que essa ausência de estruturas, de complexos, não sei, te façam um cigano menos angustiado e sozinho. Andar pelo mundo e conhecer a galera não te faz ninguém se você anda vazio; apresenta-te oco, seco, sem água pra choro.

Não sei o que esperar de você porque eu nunca esperei nada, eu levo a vida assim em “desesperanças”. Não criar expectativas torna as pessoas mais livres para alcançar o que elas querem e não sabem. Você transformou essa liberdade em uma prisão. Antes de mim, é claro, bem antes. A relação, o afeto e o estudo são fatores que você sempre encarou como cadeia. Cadeia é você.

Eu lamento por tudo aquilo que eu fiz de menos com você. Tem xingar de menos, gritar de menos, me exaltar pouco. Talvez isso tivesse te ajudado demais. Hoje, por conta disso, existe um quarto vazio, sem ar, do qual eu saí para voltar a viver aquelas vidas que eu criei. Você está sem se fazer presente nesse quarto, está por completo e inteiro na solidão que é (não) ser você. E esse vazio te morde, mas nem dá pra sentir, porque o mundo lá fora te encanta demais ao ponto de você conseguir ignorar que até mesmo pessoas como você, lutam para existir.


A gente só dá aquilo que tem e quando podemos...Você já deu alguma coisa?

sexta-feira, 20 de junho de 2014

P´tit Coquelicot



 Quão agoniante é o momento em que você percebe que tudo o que você sempre buscou está bem na sua frente? Como não se desesperar quando esse momento te mostra que você está agoniado porque nunca sonhou com nada, nunca quis nada. A gente só percebe o que falta quando aquilo que completa aparece?
"Antes do Inverno" é sobre essas perguntas e toda a experiência excruciante que elas trazem ao protagonista Paul.
 Paul é um neurocirurgião rico, com uma mansão moderna que abriga um jardim aberto à visitação. Sua mulher, Lucie, de aparência mais moderna que sua mansão, é o tipo antiquado de dona de casa que larga tudo para viver cuidando do palácio construído pelo marido enquanto ele consegue mais alguns montes de dinheiro para não gastar.
 Apesar da traição ser apresentada primeiramente como um problema para o casal, ela logo é ignorada e vista como a menor das preocupações. Não é segredo que Lucie e o melhor amigo de Paul vivem um romance que nunca aconteceu. O que consequentemente faz com que o romance também não vivido por Paul e sua ex paciente Lou Vallé, seja um não segredo.
 Quando esse romance começa na vida de Paul, ele surta. De primeiro ele se surpreende quando sua ex paciente o persegue deixando rosas em todos os lugares onde ele vive, se consulta com seu melhor amigo e está sempre nos mesmos lugares que ele. É o sonho perseguindo o sonhador. Engraçado, não? Apenas quando Paul aceita que Lou é tudo o que ele não esperava de alguém (e justo por isso ele a ama), que ele a aceita em sua vida. Sua mulher, Lucie, se revolta, é claro. Não pela traição, mas pela forma como Paul desistiu do casamento sem nem ao menos tentar. Ele não tem medo de ser covarde, de ser egoísta.
 Como funciona uma vida onde tudo é um excesso material? Cria-se uma bolha translúcida e sufocante que te impede de ver e viver coisas novas, erros novos.
 O romance entre Paul e Lou machuca os dois, não tem sexo, beijos ou carne, só amor. Um amor que vai permanecer até o final quando descobrimos que Lou não existe, é uma personagem inventada por uma imigrante  ilegal e assassina. Uma psicopata que busca homens mais velhos para seduzir e matar. Nesse momento do filme é que dizemos como Paul é um idiota por ter acreditado nas palavras de Lou-ou-não-se-mais-quem, que foi um egoísta em ter jogado seu casamento de anos fora. Mas não, Paul sabe muito bem que ele não foi enganado. A mulher pela qual ele se apaixonou estava ali.
Paul escuta as pessoas falarem que ele foi enganado junto com a notícia de que ela tinha se matado na banheira do seu apartamento/submundo. Ela se mata para não se obrigar a matar ele, ela se afasta por isso.  A necessidade de matá-lo pode ser maior que a beleza de senti-lo vivo; então, por amor, e doente da cabeça e do corpo, ela se corta com uma faca na banheira. Recria-se então uma cena que não aconteceu com Marat e a Revolução, um suicídio da loucura. Será que todos aqueles que se percebem poderosos sobre e com os outros, morrem na banheira?
 Indo, Lou deixa para Paul uma música sobre uma papoula, sobre amor, sobre sonhos... O ópio era usado dessa forma, não? Por aqueles que sabiam ser enganados e justo por isso corriam atrás daquele vazio que se transformava em nuvens de fumaça multicor.
 Acabei não explicando o que eu vi do filme, só mostrei quantas perguntas ele me deixou. Talvez eu não tenha entendido direito...Mas eu sei que Paul entende, e isso me conforta.

sábado, 7 de junho de 2014

Dia da Mãe

Mamãe, ainda é ruim te chamar assim? Qual a relação que nós mantemos com essa infância dentro de nós, onde mães e Georginas, serão sempre Mamães?
Existe sim essa ligação umbiliexistencial com as mães, não é? É estranho pensar que aquela pessoa que nos educa e torce pelo nosso crescimento se importa tanto com alguém que não seja ela mesma. Talvez o egoísmo e a hipocrisia não conseguem atingir a mãe. Porque em todas as outras esferas da humanidade eles estão presentes.
Isso tudo parece uma visão meio romântica e cafona sobre a maternidade, mas não é. Não é porque eu não acho que seja o amor que mantém e que cria essa relação entre mãe e filho, mas a projeção do sangue materno no espírito de um ser humano em eterna formação física e psicológica. Essa projeção nem sempre se dá no nascimento, as vezes as mães chegam atrasadas, mas na hora certa, na vida dos filhos que não nasceram delas (mas com elas), e dão o sangue mesmo assim.
Dar o sangue foi o que você me ensinou dentre muitas outras coisas que eu ainda não consegui aprender. Dar o sangue pelos outros, dar o sangue pela honestidade e pela alegria. Sofrer para ser feliz e ser feliz sofrendo. Poderia listar as milhões de coisas que você me ensinou, mas isso todo mundo sabe e isso ainda não é o ponto principal dessa nossa relação.
Esse capilar flexível que nos conecta é o mesmo que nos liberta um do outro; é dessa liberdade de ser quem eu quero e você ter sido quem você quis, que nos faz parceiros, nos faz presentes. Saber que eu posso caminhar longe e pra longe de você é justo o que me mantém do seu lado.
Te amo por aquilo que você se tornou e por me mostrar que ninguém nasce assim, se torna. Te amo por esse se tornar, a perfeição em não nascer pronto, em poder escolher o caminho que for para onde for.
Aniversário é isso, então? um dia para se agradecer a presença do outro?
Talvez...Para mim, aniversário é o dia para perceber como, quando e por que essa pessoa existe para você.
Você existe.

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Yeats, Hauden, Dante e Callas.

"O intelecto do homem é forçado a escolher a perfeição da vida ou do trabalho" (Yeats)

Quando eu li essa afirmação de Yeats citada por Hauden em um texto sobre escrita, eu tive que parar (sim, porque eu costumo ler andando). Parei porque eu tenho um raciocínio lento e esse tipo de afirmação complicada, perigosa, tendenciosa talvez, me deixa anestesiado por um tempo. Claro que eu poderia ter passado direto por essa frase, já que nem mesmo Hauden concorda com ela, mas se tem algum obstáculo no caminho é porque ele precisa de atenção.

Hauden, para completar o meu desconforto, diz ser impossível alcançar a perfeição nos dois casos. Mas o que faz o homem um ser perfeito não é justo a busca pela perfeição? Não se trabalha para um vida perfeita? Melhor, não seria a perfeição algo tão inútil quanto a arte?  Eu me vejo desarmado em um mundo onde é preciso saber o significado de todas as palavras...intelecto, home, perfeição, vida, trabalho...

Talvez não exista vida ou trabalho, somente a busca. O que nos move não é o final mas o processo. Talvez possamos começar pensando no final, mas o durante é o que nos completa. Como Dante passando por três planos espirituais ao passo que caminha por três níveis de auto conhecimento para encontra a Beatriz.

Discordando então da afirmação de Yeats e ao mesmo tempo da de Hauden, eu diria que não é impossível conseguir a perfeição, ela é apenas dispensável. O homem aprendeu bastante ao longo dos anos o que a perfeição pode trazer de decepções ou solidão. Tosca e Vissi D´Arte! Ou indo mais fundo: Maria Callas como Tosca cantando Vissi D´arte; é a conclusão que a arte nos dá de que o perfeito é um castigo. Isso sem precisar entrar em detalhes mais completos da vida difícil de Callas e da personagem Tosca.

O abraçar o mundo inteiro, o atirar para todos os lados, o absorver de toda informação para alcançar o perfeito, termina em um sala clara/escura sem janela, porta, teto ou chão. Mas mesmo sabendo disso, a gente simplesmente para? Eu acho que não...Se me fosse possível perguntar alguma coisa aos dois escritores, eu gostaria de saber como é que o homem consegue passar gerações atrás de uma coisa que ou ele nunca vai conseguir, ou que nunca lhe trará nada.

https://www.youtube.com/watch?v=NLR3lSrqlww

sábado, 31 de maio de 2014

Passagem, calor e aguada


Mollica, você está melhor? Ta conseguindo respirar agora? Eu espero que sim...A morte não pode ser um descanso, eu lamento te dizer isso, mas pelo menos ela nos liberta de amarras que a vida não pode soltar, como a falta de ar.
Não estávamos mais próximos no fim da sua vida mas você se lembrava de mim com carinho e isso é toda a aproximação que precisamos. Mesmo assim eu te sinto atravessando, nesse momento, os planos pictóricos e as cores. Ainda te ouço gritar elogios, história da arte, experiência de vida, críticas.
Você me protegeu. Você apresentou o Rio de Janeiro da única forma que ele poderia ser apresentado aos seus alunos.
Pelo menos você se torna agora tudo aquilo que te angustiava por não ser em vida, um quadro, uma obra, uma cor. Na verdade, se eu for buscar na minha memória eu só lembro de você assim, como cor.
Não se preocupe, isso tudo é apenas um bilhete, eu sei que você está sem tempo agora, mas só queria dizer que ta tudo bem. Que as dores da vida foram purgadas na arte. Mas você já sabe disso, não é? Acho que você percebe agora que a morte não é para ajustar nossos erros, mas para perceber que já os ajustamos em vida.
Eu não sei nada disso, professor, só estou falando aquilo que você falaria para mim.
Eu espero não ter te decepcionado por não me sentir mais um possível artista. Eu ainda tenho chances? Mesmo ríspido eu sinto que você foi o único quem acreditou em mim.
Mestre, você foi o primeiro. E justo por isso eu não quero estragar nada fazendo uma pretensa homenagem ou qualquer coisa mais floreada, só quero poder dizer um até logo.
Eu sei que agora você me escuta.
Vou manter as saudades de sempre, professor.
Muito obrigado
Do seu aluno, que era pra você: "um merdinha de 14 anos que já tem visão de artista"

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Amor de Infância

“Camilo, eu vou sair do hospital bem rapidinho. Eu vou na sua casa pra gente brincar. Ass: Guilhermo”
Guilhermo saiu do hospital morto, nunca brincou em minha casa e eu nunca mais ouvi sua voz.
Nós tínhamos cinco ou quatro anos, dois moleques bagunceiros que gostavam das mesmas coisas e dividiam as mesmas namoradas na creche. Governávamos o pátio do recreio, vivíamos grudados e estávamos no inicio do aprendizado sobre ciúmes.
Quando Gui Gui ficou doente meu pai, muito sem jeito, me levou para visita-lo. Antes de entrarmos no quarto, ele virou e disse: “Filho, o Gui Gui tá muito dodói, tá usando roupa de hospital e por conta do tratamento ele ficou carequinha. Então não fica reparando e nem comentando isso, tá bom?” Mas crianças se entendem e não precisam desse código de etiqueta que os adultos inventaram. Fora que a saudade que eu tinha do Gui Gui era tão grande que não conseguia nem pensar no estado dele.
O sol estava bonito naquela tarde e fazia todas as pedrinhas místicas na janela brilharem. Guilhermo me explicou para que cada uma servia, e até hoje penso que foi com ele que começou a minha paixão pelo universo oculto, místico.
Quando ele morreu ficaram, de muitas, três lembranças bem marcadas na minha cabeça: a do marcador de livros com o recadinho de que ele melhoraria, a visita ao hospital e da sua casa vazia, sem ele, sem sol.
Essa última lembrança da casa eu até hoje não sei dizer se foi um sonho, mas lembro de mim sozinho andando pela casa, pela beira da piscina, em frente à escadaria... Lembro de um dia muito nublado, muito silencioso, muito triste. Não tinha Gui Gui na casa e eu também não o procurava, só tentava lembrar e guardar lembranças.
Gui Gui morreu como meu primeiro amor. Talvez até comentem: “Nossa, você se descobriu gay cedo né?” Não sei dizer. Eu descobri o amor muito cedo, aquele amor bonito de criança. Nós não víamos necessidade em nos classificar e nem dar nomes pra relação, a gente vivia junto, só isso. Me descobri também muito homem por ver, sentir e encarar aquela morte da forma que encarei.
Confesso sentir saudades até hoje do Gui Gui, mesmo depois de Leonardos, Edsons, Murillos, Fernandos, Gustavos e um Caio. Sinto saudades da imagem que guardei dele, daquele menino que estava sempre do meu lado, que me queria sempre em sua casa e que não pensava em nada que não me incluísse.
Talvez Gui Gui seja hoje um anjinho que me cerca, um cupido ciumento que só permite poucos namoros em minha vida.
Espero que depois que ele “melhorou” e saiu do hospital ele tenha ido à minha casa e saiu do hospital ele tenha ido à minha casa e brincado muito comigo enquanto eu pensava estar sozinho. E espero que além de estar me observando, ele também esteja aguardando o dia em que eu vá retribuir a visita.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Vi Cente

Há algo de inconstante em sua beleza, alguma coisa que me atrapalha os sentidos, que muda meu itinerário. Acontece que ela, a sua beleza, tá sempre em água corrente, mudando e limpando a imagem anterior. Não é como aquela beleza redonda de revista e de tv, que cansa, que acaba, que você para de descobrir.

A beleza descoberta todo dia na mesma pessoa é algo que me intriga. Sim, porque não sei se posso dizer que me encanta, não me faz bem; me perturba o sono. Tanto que te escrevo a essa hora. Essa coisa de experimentar a beleza de alguém mesmo em sua ausência, mesmo em suas faltas é meio assombrosa. Não gosto de me sentir perseguido, principalmente por algo que não me diz respeito.

Talvez realmente tenha algo a ver comigo. Quero dizer, você obriga todo mundo a ter alguma coisa a ver com a sua beleza, com o seu sorriso. É esse lance narcísico de sorrir só para ver quantas pessoas vão parar para olhar. O que você não sabe (ou que talvez cruelmente saiba) é que essa sua brincadeira prende.

Você não sabe que uma beleza que não é sua, que não é nem próxima de você, pode doer tanto, não é? É algo que dói logo no olhar. Logo no primeiro contato. Pois quando você vê, você sente: Vicente.