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domingo, 3 de maio de 2015

05

Paulinha,

Estou ouvindo Chão de Giz nesse momento e nem gosto do Zé Ramalho. Sabe o que isso quer dizer? Que estou ficando cafona, que estou apaixonado. Lembro que você pediu para te avisar quando isso tornasse a acontecer e está começando a acontecer. Você acha que eu me apaixono muito facilmente, Paula? É coisa de câncer no mapa, não?

A vida tem tomado uma forma mais tranquila e fluida, onde eu posso procurar descansos, diversões e paz com a mesma rapidez que respiro. Isso me deixa inquieto, isso de ter muitas opções, muitos caminhos e não saber ao certo para onde e como ir. Sou um careta tentando se libertar.

Mamãe agora namora sabia? Ela me prova a cada segundo que o amor tem uma idade sim, aquela idade congelada entre os 12 e 16 anos, onde o belo é o olhar do outro, o espírito do outro, a vida do outro. Um eterno Madrigal Melancólico extremamente carinhoso e suave que contagia tudo ao redor... Não disse que estava ficando cafona? Mas acho que não é nem o amor e a paixão, é a felicidade do ser e estar bem sozinho, de ver que as coisas se ajustam antes mesmo que percebamos. Leio agora minha primeira carta e aquilo de termos a paz que sempre esperamos se confirma hoje. Somos paz.

Sempre me apaixono por aqueles me desarmam, Paulinha. Foi assim com você e está sendo assim com esta pessoa de agora. Uma pessoa que só não é mais bonita que o próprio nome, que o próprio ar. Acho que me apaixonei pela paixão com a qual ela fala da vida, dos ídolos, deusas e passado. Ela tem beleza até nos espaços vazios.

Tenho lembrado muito de meu pai. Sempre me lembro do meu pai pela música. Acho que a forma com que ele passava horas me apresentando/explicando músicas me deixou a única e a melhor boa lembrança dele. Por isso que Caetanos, Bethanias, Elzas, Gals e outros são tão importantes para mim; eles fazem uma ponte. Já disse e repito: você iria amar conhece-lo.

Ando me sentindo preso a um futuro muito certo e muito fácil. Não tenho nada a esperar porque as coisas já estão definidas e prontas, só preciso deixar solto. Fico inquieto comigo por me achar doido em não se preocupar mais em estar ou não namorando, estar ou não estudando, estar ou não caminhando. Prometo que vou sair dos roteiros, Paula...prometo.

Falo de você o tempo inteiro e te invoco sempre para você banir o iceberg do meu naufrágio. Meu feitiço de proteção é você e por isso assino todas essas cartas da mesma forma:


Queria que tudo fosse tão fácil quanto é gostar de ti. Sigo então sem medo da morte, apenas com medo do sem você.

quarta-feira, 4 de março de 2015

01

Paulinha,

Aconteceu tanta coisa depois que você foi embora... Foi embora mesmo? Essas idas com prazo de validade me confundem, porque a pessoa sempre volta outra e a que foi talvez suma um pouquinho. Sorte que mudança, com e em você, sempre foi a melhor coisa.

Quando você saiu eu estava começando um romance e uma doença. Os dois acabaram de forma tranquila e até mesmo engraçada, só deixaram umas marquinhas, tipo fuligem que sai rápido, mas te deixa sujinho. É que esse romance entrou no carnaval e o carnaval despertou dores no coração dele que já não existiam mais no meu. Será que um dia as pessoas vão aprender a ir embora sempre pra frente e não pro passado?

Não é difícil encontrar outras festas e “zoeiras”, mas é diferente. As nossas festas tinham um endereço diferente que servem até mesmo para justificar a frase do Serguei “O rock sou eu.”. Nós éramos a festa. Por isso é que fico meio assustado quando eu rio do nada e não tem você do lado para entender aquele sorriso que não quer dizer nada. Você faz falta em mim.

Ainda fico bêbado e faço parte de grupos louquinhos pelos dias e noites da cidade, mas não tem você para entender os pesos, as energias negativas, para bloquear os caretas... Como eu seguro isso tudo sozinho, mulher? O mundo que já era estreito fica mais apertado sem você.

É estranho a cada sonho, a cada frase bonita de livro, cada farra e loucura não ter você como primeiro recurso para contar, para viver. Aí eu acabo esquecendo tudo isso só porque você não está mais do meu lado como estava quase todo dia, toda ligação, toda mensagem. Eu culpo seu crescimento, sua genialidade, sua leveza com a vida e com o mundo, por toda essa distância.

Esse ano, mesmo começando sem você, vai ser tão incrível, Paula. Você sente isso quando olha pra janela no final da tarde tomando aquele chazinho que te deram aí, não é? Não parece que tudo aquilo que a gente viveu e que nos aporrinhava vai se transformar na paz que a gente quiser? O final desse recente e prematuro romance fechou as portas, para sempre, daquele amor mais antigo e de difícil fim, o que é lindo. O início desse ano me traz um projeto de pesquisa tão incrível que pela primeira vez na vida eu me sinto inteligente. Talvez só você entenda como é importante para mim me reconhecer inteligente...

Não somos amigos porque nunca brigamos, mas porque sabemos que não existe um terço de disposição para brigarmos por qualquer (in)diferença no outro. É aí que eu sinto saudades da sua voz, de quando eu não entendo o que você fala porque você está rindo muito. Ou quando você revira os olhos pedindo para que alguma entidade te tire de uma situação insuportável.

Você está feliz e eu mais ainda. Mesmo com você longe fico feliz em sentir essas saudades porque percebo que eu não preciso de você e nem você de mim, e justo por isso somos indispensáveis para o outro.

Queria que tudo fosse tão fácil quanto é gostar de ti. Sigo então sem medo da morte, apenas com medo do sem você.


sábado, 31 de maio de 2014

Sábado, paz e macarrão.

Vals - Pablo Neruda.
Yo toco el odio como pecho diurno, 
yo sin cesar, de ropa en ropa vengo
durmiendo lejos.

No soy, no sirvo, no conozco a nadie, 
no tengo armas de mar ni de madera,
no vivo en esta casa.

De noche y agua está mi boca llena. 
La duradera luna determina 
lo que no tengo.

Lo que tengo está en medio de las olas. 
Un rayo de agua, un día para mí:
un fondo férreo.

No hay contramar, no hay escudo, no hay traje, 
no hay especial solución insondable, 
ni párpado vicioso.

Vivo de pronto y otras veces sigo.
Toco de pronto un rostro y me asesina.
No tengo tiempo.

No me busquéis entonces descorriendo
el habitual hilo salvaje o la 
sangrienta enredadera.

No me llaméis: mi ocupación es ésa. 
No preguntéis mi nombre ni mi estado.
Dejadme en medio de mi propia luna, 
en mi terreno herido.


Valsa - Pablo Neruda.
Eu toco o ódio como peito diurno,
sem cessar, de roupa em roupa venho
dormindo longe.

Não sou, não sirvo, não conheço ninguém,
não tenho armas de mar nem de madeira,
não vivo nesta casa.

De noite e água está a minha boca cheia.
A duradoura lua determina
o que não tenho.

O que tenho está no meio das ondas.
Um raio de água, um dia para mim:
um fundo férreo.

Não há quebra-mar, não há escudo, não há traje;
não há especial solução insondável,
nem pálpebra viciosa.

Vivo logo e outras vezes continuo.
Toco logo um rosto e me assassina.
Não tenho tempo.

Não me procureis então percorrendo outra vez
o habitual fio selvagem
ou a sangrenta trepadeira.

Não me chameis: a minha ocupação é essa.
Não pergunteis o meu nome nem o meu estado.
Deixai-me em meio à minha própria lua,
no meu terreno ferido.


Tradução de Eliana Zagury; no livro "Pablo Neruda: Antologia Poética", da editora "Livraria José Olympio". Rio de Janeiro, 1976.

terça-feira, 13 de maio de 2014

Cenas De Um Casamento, por Bergman.






Vou compartilhar um texto escrito pelo Bergman, acerca de "Cenas de um Casamento". Ele fez o roteiro primeiro para televisão em seis capítulos, por isso no Círculo Do Livro tem um mini-texto feito por ele, no qual é armada uma tentativa de situar cada episódio e como eles funcionam como um todo. Creio, que após essa entrega de processo criativo feita pelo próprio Bergman, seria inútil – até mesmo cansativo –, uma tentativa de crítica que partisse de mim. Imagino que nem todos tenham acesso a esse livro, então resolvi compartilhar aqui os comentários de Bergman que acredito serem os mais singelos, objetivos e iluminadores sobre sua obra.


Para que o leitor desprevenido não se desoriente no texto, acho que, contra o meu hábito, devo fazer aqui um comentário às seis cenas. Aquele que tomar estas diretrizes como desconsideração deverá saltá-las.

Primeira cena; Pureza e pânico: Johan e Marianne são filhos de convenções precisas e formados dentro da ideologia da segurança material. Jamais consideraram os princípios burgueses em que vivem como restritos ou falsos. Organizaram-se dentro de um padrão de vida que estão dispostos a transmitir para os descendentes. Suas atividades políticas anteriores são mais uma confirmação dessa ideia do que uma contradição.

Na primeira cena, eles apresentam uma imagem maravilhosa do que seria um casamento quase ideal, um casamento que, ainda por cima, confronta-se com uma ligação infernal. De uma maneira tranquila e equilibrada, eles se sentem orgulhosos, acham que montaram tudo da melhor forma possível. As soluções de praxe e os chavões do estilo sussurram em nossos ouvidos. Peter e Katarina sobressaem como insanos dignos de pena, enquanto Johan e Marianne organizaram toda a sua vida na melhor das formas e vivem no melhor dos mundos. No final da cena, ambos são vítimas de uma pequena adversidade. Esse acontecimento coloca-os diante de um impasse. Surge uma pequena ferida superficial que se fecha, deixando uma cicatriz, mas por baixo da cicatriz, ainda existe infecção. Pelo menos, foi dessa forma que eu pensei a coisa. Se alguém pensar de maneira diferente, também está bem.

Segunda cena; A arte de varrer para baixo do tapete: Ainda continua tudo idealmente bem, quase grandiosamente bem. Surgem pequenas preocupações, contornadas num ambiente jocoso. Apresentam-se as profissões, os ambientes de trabalho. Aparece uma certa angústia em Marianne. Ela ainda não a consegue definir, e muito menos consegue compreendê-la, mas institivamente sente que existe algo de errado entre ela e Johan. Faz um ligeiro esforço, não muito convincente, para tapar a rachadura nebulosamente suspeitada. Johan recebe também uma série de telefonemas misteriosos. À noite, depois de terem estado no teatro e terem visto Casa de bonecas de Ibsen – o que é que eles poderia ter visto de diferente? -, surge uma atmosfera de desentendimento que ambos tentam superar e que, em última instância, acaba varrida para baixo do tapete.

Terceira cena; Paula: Aí cai a guilhotina, Johan comunica de forma bastante brutal que está apaixonado por outra mulher e que pretende uma separação. Apresenta-se cheio de ânsia vital de ação e oxidado pelo egoísmo eufórico do novo amor. Marianne sucumbe, fulminada. Fica totalmente à deriva. Em alguns minutos, ela se transforma diante de nossos olhos em uma ferida sangrante e convulsiva de humilhação e desorientação.

Quarta cena; Vale de lágrimas: Veem-se novamente depois de bastante tempo. Para Johan começou tudo a ficar um pouco para o lado do inferno, embora nada se note. Pelo contrário. Para Marianne verifica-se um começo de recuperação, embora muito fraco e marcado por tudo o que se passou entre eles: a dependência perante Johan, a solidão contaminada, a vontade de que tudo volte a ficar como antigamente. Seu encontro é doloroso e desajeitado. Na mistura de reconciliação e agressividade, aproximam-se reciprocamente durante curtos momentos através do isolamento e do desprendimento. Tudo, porém, ainda está dolorido, infectado, roto. É uma cena verdadeiramente lamentável e triste, devo dizer.

Quinta cena; Os analfabetos: É agora que explode o verdadeiro inferno. Marianne começa a ficar recuperada e Johan fica cada vez mais afastado da realidade. Ambos têm a boa ideia de, em conjunto, requerer o divórcio e de utilizarem o mesmo advogado. Para assinar os papéis do divórcio encontram-se, novamente, uma noite, no escritório de Johan. De repente, toda carga vai pelos ares e surgem, arejando-se, todas as agressões contidas durante anos, todo o ódio, todo o sofrimento e toda raiva recíprocos. Entram num processo gradual de desumanização e acabam por ser realmente desagradáveis e se portarem como dois loucos que apenas têm um pensamento, principalmente o de maltratarem-se um ao outro o mais possível, tanto corporal como espiritualmente. Através de seus esforços, eles acabam até mesmo por se tornarem um pouco piores do que Peter e Katarina, da primeira cena, já que esses de qualquer maneira têm uma certa rotina no seu inferno e são por assim dizer mais profissionais em seu rancor. Esta suprema temperança, nem Johan nem Marianne ainda conseguiram aprender. Eles querem pura e simplesmente destruir-se um ao outro. E quase chegam a ser bem sucedidos nessa ambição.

Sexta cena; No meio da noite, numa casa escura, em algum lugar do mundo: Nesta altura, imagino que dois novos seres humanos começam a renascer de toda essa destruição. Talvez isso seja demasiado otimismo, mas não posso evitar que se tenha tornado assim. Tanto Johan como Marianne passaram por um vale de lágrimas e tornaram-se rico em fontes. Ambos começam um período de realfabetização em matéria de conhecimento de si mesmos, se é que, na realidade, podemos expressar nosso pensamento deste modo. Não é apenas resignação. Trata-se também de amor. Marianne pára e senta-se pela primeira vez para ouvir sua mãe, pessoa complicada. Johan vê reconciliadoramente a sua própria situação e é bom para Marianne de uma maneira inédita e adulta. Tudo, porém, ainda é desorientação e nada se tornou melhor. Todas as suas relações estão embaraçadas e suas vidas baseiam-se, incontestavelmente, num montão de feios compromissos. Mas, de qualquer maneira, eles vivem agora num mundo de verdades e de realidades, de uma forma completamente diferente em relação ao passado. Pelo menos, acho eu que sim. Não existe, de qualquer forma,  uma solução por perto, e, assim, uma espécie de verdadeiro happy end não houve. Embora tivesse sido divertido chegar a um tal happy end. Se não fosse por outra razão, pelo menos teria servido para irritar as pessoas artisticamente ultra-sensíveis que por aversão a esta obra, completamente compreensível, vão começar por ter vômitos estéticos já na primeira cena.

O que é que resta mais para dizer? Este opus levou três meses para ser escrito mas representa um período bastante longo da minha vida em experiência. Não estou certo se teria sido melhor ser ao contrário, embora talvez tivesse ficado mais refinado. Eu senti uma espécie de dedicação por esses seres humanos durante todo o tempo que trabalhei com eles. Tornaram-se bastante contraditórios, por vezes infantilmente angustiados, outras vezes bastante adultos. Dizem que um bom bocado de coisas insignificantes por vezes dizem algo de importante. Mostram-se angustiados, felizes, tolos, bons, inteligentes, bem comportados, delicados, zangados, tolerantes, sentimentais, insuportáveis, e amoráveis. Tudo de uma vez só. Agora vamos ver como é que vai sair.

Farö, 28 de maio de 1972.


Ingmar Bergman

Extraído de: 
BERGMAN, I. Cenas de um Casamento. São Paulo: Círculo do Livro, 1972.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Funeral Kings: entre assaltos e acasos, o mal está feito.



Eu e um amigo, após vermos esse filme em uma segunda, fomos para um ponto de ônibus perto da casa dele às seis da manhã, quando moradores começam a descer com os cachorros, padarias a serem abertas e o Sol a anunciar um futuro gracejo. Por acaso, fomos abordados por um personagem – desculpem-me, mas não consigo vê-lo como outra coisa – que estava claramente trincado. O indivíduo, como o policial se referiu no RO – caricatamente genial – portava uma faca pequena e lascada, e disse que queria algo de valor, qualquer coisa de valor; o que tínhamos a oferecer, no caso, era um celular velho, um HD externo do meu amigo com todas as temporadas de Queer as Folk e a minha câmera analógica com um filme cheio de imagens fofas em aniversários, que convenhamos, imagino não garantir muita grana quando é trocada por crack. Ah, e o dinheiro, sempre o dinheiro! Tínhamos 40 reais. Sem valor, mas que deu pra levar, só pela aporrinhação: minha chave de casa, carteira de identidade e carteira do plano de saúde, o de praxe. 

Ele pegou a bolsa rasgada que já passou muitos perrengues comigo, enfiou debaixo do braço e fez sinal para um ônibus que ironicamente ia para perto da minha casa. Era uma figura com duas chupetas penduradas no pescoço, embora alto, era bastante magro e assim que entrou no ônibus, aquela figura me fez ser pega por uma vontade de gargalhar enquanto meu amigo estava com cara de “que porra é essa?”. Ele perguntando se éramos namorados, como se fosse fazer alguma diferença. “Só é a minha amiga, mata”. Ele falando pra gente não fazer nada, pois iríamos nos machucar, despertando todo o ar de tragédia-comédia de uma realidade paralela em que somos esfaqueados e morremos de tétano. É triste: nossos pequenos eventos-verdade que enchiam nossas vidas de significados impressos naqueles objetos baratos, agora estão descontextualizados, por isso, serão meras tralhas. Estávamos mais perplexos do que assustados, por alguém querer levá-los: se na nossa sociedade o que vale é dinheiro, por que porras esse cara tá querendo tomar afeto?

Naquele dia, eu aproveitei uma carona para ir visitar meu amigo, afinal, era pascoa e eu nem pretendia sair de casa. No maior estilo Milan Kundera, consigo contar os acasos que me levaram até o roubo do único objeto que gostaria de ter de volta, que era  o filme; insubstituível. Por acaso, tinham 3 poses no filme e por isso levei a câmera, aproveitando essa rara carona que veio me buscar em casa e por causa de uma segunda carona que me deixou perto da casa do meu amigo em Vila Isabel, aproveitei e fui lá dar um abraço. Assistimos filmes pela noite, e assim que Funeral Kings acabou, meu amigo me acompanhou até o ponto que não havia um por quê estarmos lá, – afinal, eu dormiria na casa dele, mas naquele feriado ele precisava trabalhar às 7. Foi algo que simplesmente aconteceu, fomos levados até lá, naquele instante. Não há uma lição de moral, porque assim como o maníaco da chupeta – algo que rendeu muitas piadas, diga-se de passagem –, foram eventos que simplesmente vieram enquanto seguíamos o protocolo frequentemente dito pelos pais: “espere amanhecer para vir pra casa”

Como Funeral Kings, a minha história não é uma fábula, é uma grande metáfora sobre a vida. Uma comédia de erros, que só nos faz pensar no peso das coisas. As crianças do filme, seguem randomicamente por uma rotina que parece absurda e diante da série de símbolos do que reconhecemos como “pode dar merda”, elas parecem não conseguir extrair o resultado justamente por não irem até as últimas consequências das experiências. Talvez, uma das únicas ações concluídas – e mesmo assim, concluída por um acaso – tenha sido a morte do cachorro, algo que mexe com o cachinhos de cupido. Charlie mais uma vez ao sair intacto de suas tretas, volta a fazer merdinha: ele rouba finalmente um cobiçado DVD, que como todas as coisas da vida que a gente deseja por dias, não é lá grandes coisas. Lembro do meu amigo dizendo para eu não deletar nada do HD externo antes de eu levá-lo, mas no momento em que o HD perpetuamente disse adeus, nada foi dito, nada mais importava. Igual meus objetos, que não eram lá grandes coisas, afinal, tô bem e ainda tenho uma vida inteira para repô-los. As imagens do filme, são só imagens, são só abstração do que eu ainda posso sentir aqui; aqui, a vida.

Charlie passa o filme subvertendo as condições impostas pelos seus 14 anos em escola católica e nessas tentativas, esse subúrbio vira South Park e suas crianças parecem mais aptas a entender o mundo ao redor do que os adultos – por sinal, que adultos? Há umas típicas cenas provavelmente idealizadas no inicio dos anos 2000, dessas crianças tentando enrolar um dos poucos adultos com falas no filme, que é o típico “fracassado” de 30 anos: um balconista de locadora. Obviamente entre uma palhaçada e outra, elas vão perceber que ele não é apenas balconista e mesmo entendendo o perigo que ele representa, vão usar o revolver que encontram na mala do terceiro coroinha, o de 16 anos. Se conselho fosse bom, não dava, vendia, minha boa mãe já dizia.

Vi uma crítica sobre o filme que dá a entender que não vale a pena usar o Netflix pra isso, eu pessoalmente, acho que vale. Facilmente o comparo à minha vida, então como achar o filme desimportante? A narrativa a principio é bem confusa, por ser exibida em fragmentos – os dias da semana são marcados, o que acaba dando uma certa organização a esses fragmentos – mas com o tempo a gente entra no clima e se pega assistindo o filme mais pelo magnetismo do cachinhos – me lembra até “O Pequeno Fugitivo” ou até mesmo Doinel em “Os Incompreendidos” – do que pela história, que logo nos 30 primeiros minutos você percebe que não vai dar em nada. Então, sou pega pelo prazer de como a história é contada e não pelos resultados que ela dará, para ao fim, me ver surpreendida com a falta de sentido que parece fazer todo sentido. Me lembra séries atuais como Wilfred, que o personagem principal parece correr atrás do próprio rabo como se fosse um cachorro. 

É uma história sobre amadurecimento e Charlie é um menino cheio de coragem pra ser o que é, seja lá o que for isso. Acho divertido a ponte paradoxo entre o fato deles serem coroinhas e o fato de tudo parecer como um rolar de dados, que mesmo assim, como já aprendemos com Mallarme, jamais abolirá o acaso. Se o mal está feito, está feito e a câmera se foi.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

17/04/2014: Sobre eu mesma.


"Era lamentável: o cheiro das amêndoas amargas lhe lembrava sempre o destino dos amores contrariados."
            
Jamais pude esquecer o inicio de "O amor nos tempos do Cólera". Imagine só, aos 16 anos, estudando em uma escola de química finalmente achar uma aplicação prática pro cianeto? E essa aplicação prática ser tão trágica? E todos os risos abafadinhos que dávamos lendo uma apostila teórica em relação ao cheiro das amêndoas, não soarem tão engraçados assim?

O primeiro livro que li dele, foi “100 Anos de Solidão”, depois “O Enterro do Diabo”, ambos, peguei na biblioteca do ensino fundamental. Eu estava naquele processo natural de largar as aventuras das sobrinhas da bruxa Onilda – isso começou, sem dúvidas, após eu ler “Viagem ao Centro da Terra”, do Verne –; na minha estrada, houve Sidney Sheldon, Dan Brown e sem arrependimentos, alguns outros títulos de suspense (até mesmo um do Paulo Coelho, “O Demônio e a Srta. Prym”), mas nunca foram lá meus prediletos, por isso, encontrar um livro com as páginas amareladas, as pontas dobradas e a capa prestes a desgarrar-se do resto dos papéis que aguardavam pelo ácaro enquanto carregava a palavra “solidão”, era algo que eu precisava. Eu me lembro, que só quis o livro pelo peso da palavra. Aos 13 anos, não era o tipo de coisa que eu conseguia definir, era algo que parecia claramente espalhado pelo meu corpo, mas que eu não podia entender. Mais do que qualquer suspense, aquela palavra, estava cercada de mistérios: parecia tão próxima, tão minha, mas de alguma forma, eu não sabia usá-la.
            
Uma vida inteira baseada em festas intermináveis desabando em alegrias murchas. Alegrias alegres por serem suficientemente tristes. Comemorações características de estar só, mesmo estando em grupo. Pequenas decadências. Um grande aglomerado esperando tudo ruir – quando conheci Fellini alguns anos depois, acho que todo o meu amor teve suas origens trabalhadas em Gabo. A parede descascando, os móveis quebrando, a comida aos desperdícios sendo atirada ao lixo e muitos outros excessos a nos diluir até podermos enfim, desprendermos de nós mesmos; esquecermos a nós mesmos. Seu Realismo Mágico – ah!, que encanto soava e ainda soa, pensar em algo assim – funciona como alerta, um alerta ao absurdo que é ouvir um despertador tocar e ir pegar o trem das oito da manhã. É como ver um mundo absurdo que pode ser aqui ou lugar nenhum. É como já disse, uma grande farra, uma magnífica destruição.
            
Acho que esses encontros, me ajudaram a conviver com esse e outros demônios; principalmente, com essa chama dentro da gente que sempre grita que não é o suficiente. Um brilho que me inspira, que me faz entender o sentimento sem sentido – por descartar o bem-estar e a praticidade, por ser inútil em suas tentativas de trazer conforto – de manter um galo de briga em “Ninguém Escreve ao Coronel”; ver um mundo desabar na sua solidão de sentir algo por alguém que morreu e ninguém se importou – “Crônica de uma Morte Anunciada” –; a resignação por trás de saber o que no corpo instintivamente pesa; saber que é tudo seu, egoistamente seu.
            
Talvez, eu não tenha dito o que eu quero dizer. Talvez, Borges ao afirmar: “Ler, antes de tudo, é uma atividade posterior à de escrever: mais resignada, mais civil, mais intelectual”, no prólogo de História da Infâmia, tenha dito parte do que ousei pensar. Talvez, não há nada que possa ser feito. Talvez, não seja útil, talvez, seja solitário demais, talvez, não venha nem a ser nosso porque não se pode possuir à nada e talvez, não vá me levar à lugar nenhum. Talvez, eu não vá me curar. Talvez, o passo seja maior do que minhas pernas; ousado demais pra uma menina medrosa demais. Talvez, tentar escrever seja uma questão de tentar ser eu. Dói.