sexta-feira, 20 de junho de 2014
P´tit Coquelicot
Quão agoniante é o momento em que você percebe que tudo o que você sempre buscou está bem na sua frente? Como não se desesperar quando esse momento te mostra que você está agoniado porque nunca sonhou com nada, nunca quis nada. A gente só percebe o que falta quando aquilo que completa aparece?
"Antes do Inverno" é sobre essas perguntas e toda a experiência excruciante que elas trazem ao protagonista Paul.
Paul é um neurocirurgião rico, com uma mansão moderna que abriga um jardim aberto à visitação. Sua mulher, Lucie, de aparência mais moderna que sua mansão, é o tipo antiquado de dona de casa que larga tudo para viver cuidando do palácio construído pelo marido enquanto ele consegue mais alguns montes de dinheiro para não gastar.
Apesar da traição ser apresentada primeiramente como um problema para o casal, ela logo é ignorada e vista como a menor das preocupações. Não é segredo que Lucie e o melhor amigo de Paul vivem um romance que nunca aconteceu. O que consequentemente faz com que o romance também não vivido por Paul e sua ex paciente Lou Vallé, seja um não segredo.
Quando esse romance começa na vida de Paul, ele surta. De primeiro ele se surpreende quando sua ex paciente o persegue deixando rosas em todos os lugares onde ele vive, se consulta com seu melhor amigo e está sempre nos mesmos lugares que ele. É o sonho perseguindo o sonhador. Engraçado, não? Apenas quando Paul aceita que Lou é tudo o que ele não esperava de alguém (e justo por isso ele a ama), que ele a aceita em sua vida. Sua mulher, Lucie, se revolta, é claro. Não pela traição, mas pela forma como Paul desistiu do casamento sem nem ao menos tentar. Ele não tem medo de ser covarde, de ser egoísta.
Como funciona uma vida onde tudo é um excesso material? Cria-se uma bolha translúcida e sufocante que te impede de ver e viver coisas novas, erros novos.
O romance entre Paul e Lou machuca os dois, não tem sexo, beijos ou carne, só amor. Um amor que vai permanecer até o final quando descobrimos que Lou não existe, é uma personagem inventada por uma imigrante ilegal e assassina. Uma psicopata que busca homens mais velhos para seduzir e matar. Nesse momento do filme é que dizemos como Paul é um idiota por ter acreditado nas palavras de Lou-ou-não-se-mais-quem, que foi um egoísta em ter jogado seu casamento de anos fora. Mas não, Paul sabe muito bem que ele não foi enganado. A mulher pela qual ele se apaixonou estava ali.
Paul escuta as pessoas falarem que ele foi enganado junto com a notícia de que ela tinha se matado na banheira do seu apartamento/submundo. Ela se mata para não se obrigar a matar ele, ela se afasta por isso. A necessidade de matá-lo pode ser maior que a beleza de senti-lo vivo; então, por amor, e doente da cabeça e do corpo, ela se corta com uma faca na banheira. Recria-se então uma cena que não aconteceu com Marat e a Revolução, um suicídio da loucura. Será que todos aqueles que se percebem poderosos sobre e com os outros, morrem na banheira?
Indo, Lou deixa para Paul uma música sobre uma papoula, sobre amor, sobre sonhos... O ópio era usado dessa forma, não? Por aqueles que sabiam ser enganados e justo por isso corriam atrás daquele vazio que se transformava em nuvens de fumaça multicor.
Acabei não explicando o que eu vi do filme, só mostrei quantas perguntas ele me deixou. Talvez eu não tenha entendido direito...Mas eu sei que Paul entende, e isso me conforta.
sábado, 7 de junho de 2014
Dia da Mãe
Mamãe, ainda é ruim te chamar assim? Qual a relação que nós mantemos com essa infância dentro de nós, onde mães e Georginas, serão sempre Mamães?
Existe sim essa ligação umbiliexistencial com as mães, não é? É estranho pensar que aquela pessoa que nos educa e torce pelo nosso crescimento se importa tanto com alguém que não seja ela mesma. Talvez o egoísmo e a hipocrisia não conseguem atingir a mãe. Porque em todas as outras esferas da humanidade eles estão presentes.
Isso tudo parece uma visão meio romântica e cafona sobre a maternidade, mas não é. Não é porque eu não acho que seja o amor que mantém e que cria essa relação entre mãe e filho, mas a projeção do sangue materno no espírito de um ser humano em eterna formação física e psicológica. Essa projeção nem sempre se dá no nascimento, as vezes as mães chegam atrasadas, mas na hora certa, na vida dos filhos que não nasceram delas (mas com elas), e dão o sangue mesmo assim.
Dar o sangue foi o que você me ensinou dentre muitas outras coisas que eu ainda não consegui aprender. Dar o sangue pelos outros, dar o sangue pela honestidade e pela alegria. Sofrer para ser feliz e ser feliz sofrendo. Poderia listar as milhões de coisas que você me ensinou, mas isso todo mundo sabe e isso ainda não é o ponto principal dessa nossa relação.
Esse capilar flexível que nos conecta é o mesmo que nos liberta um do outro; é dessa liberdade de ser quem eu quero e você ter sido quem você quis, que nos faz parceiros, nos faz presentes. Saber que eu posso caminhar longe e pra longe de você é justo o que me mantém do seu lado.
Te amo por aquilo que você se tornou e por me mostrar que ninguém nasce assim, se torna. Te amo por esse se tornar, a perfeição em não nascer pronto, em poder escolher o caminho que for para onde for.
Aniversário é isso, então? um dia para se agradecer a presença do outro?
Talvez...Para mim, aniversário é o dia para perceber como, quando e por que essa pessoa existe para você.
Você existe.
Existe sim essa ligação umbiliexistencial com as mães, não é? É estranho pensar que aquela pessoa que nos educa e torce pelo nosso crescimento se importa tanto com alguém que não seja ela mesma. Talvez o egoísmo e a hipocrisia não conseguem atingir a mãe. Porque em todas as outras esferas da humanidade eles estão presentes.
Isso tudo parece uma visão meio romântica e cafona sobre a maternidade, mas não é. Não é porque eu não acho que seja o amor que mantém e que cria essa relação entre mãe e filho, mas a projeção do sangue materno no espírito de um ser humano em eterna formação física e psicológica. Essa projeção nem sempre se dá no nascimento, as vezes as mães chegam atrasadas, mas na hora certa, na vida dos filhos que não nasceram delas (mas com elas), e dão o sangue mesmo assim.
Dar o sangue foi o que você me ensinou dentre muitas outras coisas que eu ainda não consegui aprender. Dar o sangue pelos outros, dar o sangue pela honestidade e pela alegria. Sofrer para ser feliz e ser feliz sofrendo. Poderia listar as milhões de coisas que você me ensinou, mas isso todo mundo sabe e isso ainda não é o ponto principal dessa nossa relação.
Esse capilar flexível que nos conecta é o mesmo que nos liberta um do outro; é dessa liberdade de ser quem eu quero e você ter sido quem você quis, que nos faz parceiros, nos faz presentes. Saber que eu posso caminhar longe e pra longe de você é justo o que me mantém do seu lado.
Te amo por aquilo que você se tornou e por me mostrar que ninguém nasce assim, se torna. Te amo por esse se tornar, a perfeição em não nascer pronto, em poder escolher o caminho que for para onde for.
Aniversário é isso, então? um dia para se agradecer a presença do outro?
Talvez...Para mim, aniversário é o dia para perceber como, quando e por que essa pessoa existe para você.
Você existe.
quinta-feira, 5 de junho de 2014
Yeats, Hauden, Dante e Callas.
"O intelecto do homem é forçado a escolher a perfeição da vida ou do trabalho" (Yeats)
Quando eu li essa afirmação de Yeats citada por Hauden em um texto sobre escrita, eu tive que parar (sim, porque eu costumo ler andando). Parei porque eu tenho um raciocínio lento e esse tipo de afirmação complicada, perigosa, tendenciosa talvez, me deixa anestesiado por um tempo. Claro que eu poderia ter passado direto por essa frase, já que nem mesmo Hauden concorda com ela, mas se tem algum obstáculo no caminho é porque ele precisa de atenção.
Hauden, para completar o meu desconforto, diz ser impossível alcançar a perfeição nos dois casos. Mas o que faz o homem um ser perfeito não é justo a busca pela perfeição? Não se trabalha para um vida perfeita? Melhor, não seria a perfeição algo tão inútil quanto a arte? Eu me vejo desarmado em um mundo onde é preciso saber o significado de todas as palavras...intelecto, home, perfeição, vida, trabalho...
Talvez não exista vida ou trabalho, somente a busca. O que nos move não é o final mas o processo. Talvez possamos começar pensando no final, mas o durante é o que nos completa. Como Dante passando por três planos espirituais ao passo que caminha por três níveis de auto conhecimento para encontra a Beatriz.
Discordando então da afirmação de Yeats e ao mesmo tempo da de Hauden, eu diria que não é impossível conseguir a perfeição, ela é apenas dispensável. O homem aprendeu bastante ao longo dos anos o que a perfeição pode trazer de decepções ou solidão. Tosca e Vissi D´Arte! Ou indo mais fundo: Maria Callas como Tosca cantando Vissi D´arte; é a conclusão que a arte nos dá de que o perfeito é um castigo. Isso sem precisar entrar em detalhes mais completos da vida difícil de Callas e da personagem Tosca.
O abraçar o mundo inteiro, o atirar para todos os lados, o absorver de toda informação para alcançar o perfeito, termina em um sala clara/escura sem janela, porta, teto ou chão. Mas mesmo sabendo disso, a gente simplesmente para? Eu acho que não...Se me fosse possível perguntar alguma coisa aos dois escritores, eu gostaria de saber como é que o homem consegue passar gerações atrás de uma coisa que ou ele nunca vai conseguir, ou que nunca lhe trará nada.
https://www.youtube.com/watch?v=NLR3lSrqlww
Quando eu li essa afirmação de Yeats citada por Hauden em um texto sobre escrita, eu tive que parar (sim, porque eu costumo ler andando). Parei porque eu tenho um raciocínio lento e esse tipo de afirmação complicada, perigosa, tendenciosa talvez, me deixa anestesiado por um tempo. Claro que eu poderia ter passado direto por essa frase, já que nem mesmo Hauden concorda com ela, mas se tem algum obstáculo no caminho é porque ele precisa de atenção.
Hauden, para completar o meu desconforto, diz ser impossível alcançar a perfeição nos dois casos. Mas o que faz o homem um ser perfeito não é justo a busca pela perfeição? Não se trabalha para um vida perfeita? Melhor, não seria a perfeição algo tão inútil quanto a arte? Eu me vejo desarmado em um mundo onde é preciso saber o significado de todas as palavras...intelecto, home, perfeição, vida, trabalho...
Talvez não exista vida ou trabalho, somente a busca. O que nos move não é o final mas o processo. Talvez possamos começar pensando no final, mas o durante é o que nos completa. Como Dante passando por três planos espirituais ao passo que caminha por três níveis de auto conhecimento para encontra a Beatriz.
Discordando então da afirmação de Yeats e ao mesmo tempo da de Hauden, eu diria que não é impossível conseguir a perfeição, ela é apenas dispensável. O homem aprendeu bastante ao longo dos anos o que a perfeição pode trazer de decepções ou solidão. Tosca e Vissi D´Arte! Ou indo mais fundo: Maria Callas como Tosca cantando Vissi D´arte; é a conclusão que a arte nos dá de que o perfeito é um castigo. Isso sem precisar entrar em detalhes mais completos da vida difícil de Callas e da personagem Tosca.
O abraçar o mundo inteiro, o atirar para todos os lados, o absorver de toda informação para alcançar o perfeito, termina em um sala clara/escura sem janela, porta, teto ou chão. Mas mesmo sabendo disso, a gente simplesmente para? Eu acho que não...Se me fosse possível perguntar alguma coisa aos dois escritores, eu gostaria de saber como é que o homem consegue passar gerações atrás de uma coisa que ou ele nunca vai conseguir, ou que nunca lhe trará nada.
https://www.youtube.com/watch?v=NLR3lSrqlww
sábado, 31 de maio de 2014
Sábado, paz e macarrão.
Vals - Pablo Neruda.
Yo toco el odio como pecho diurno,
yo sin cesar, de ropa en ropa vengo
durmiendo lejos.
No soy, no sirvo, no conozco a nadie,
no tengo armas de mar ni de madera,
no vivo en esta casa.
De noche y agua está mi boca llena.
La duradera luna determina
lo que no tengo.
Lo que tengo está en medio de las olas.
Un rayo de agua, un día para mí:
un fondo férreo.
No hay contramar, no hay escudo, no hay traje,
no hay especial solución insondable,
ni párpado vicioso.
Vivo de pronto y otras veces sigo.
Toco de pronto un rostro y me asesina.
No tengo tiempo.
No me busquéis entonces descorriendo
el habitual hilo salvaje o la
sangrienta enredadera.
No me llaméis: mi ocupación es ésa.
No preguntéis mi nombre ni mi estado.
Dejadme en medio de mi propia luna,
en mi terreno herido.
Valsa - Pablo Neruda.
Eu toco o ódio como peito diurno,
sem cessar, de roupa em roupa venho
dormindo longe.
Não sou, não sirvo, não conheço ninguém,
não tenho armas de mar nem de madeira,
não vivo nesta casa.
De noite e água está a minha boca cheia.
A duradoura lua determina
o que não tenho.
O que tenho está no meio das ondas.
Um raio de água, um dia para mim:
um fundo férreo.
Não há quebra-mar, não há escudo, não há traje;
não há especial solução insondável,
nem pálpebra viciosa.
Vivo logo e outras vezes continuo.
Toco logo um rosto e me assassina.
Não tenho tempo.
Não me procureis então percorrendo outra vez
o habitual fio selvagem
ou a sangrenta trepadeira.
Não me chameis: a minha ocupação é essa.
Não pergunteis o meu nome nem o meu estado.
Deixai-me em meio à minha própria lua,
no meu terreno ferido.
Tradução de Eliana Zagury; no livro "Pablo Neruda: Antologia Poética", da editora "Livraria José Olympio". Rio de Janeiro, 1976.
Passagem, calor e aguada
Mollica, você está melhor? Ta conseguindo respirar agora? Eu espero que sim...A morte não pode ser um descanso, eu lamento te dizer isso, mas pelo menos ela nos liberta de amarras que a vida não pode soltar, como a falta de ar.
Não estávamos mais próximos no fim da sua vida mas você se lembrava de mim com carinho e isso é toda a aproximação que precisamos. Mesmo assim eu te sinto atravessando, nesse momento, os planos pictóricos e as cores. Ainda te ouço gritar elogios, história da arte, experiência de vida, críticas.
Você me protegeu. Você apresentou o Rio de Janeiro da única forma que ele poderia ser apresentado aos seus alunos.
Pelo menos você se torna agora tudo aquilo que te angustiava por não ser em vida, um quadro, uma obra, uma cor. Na verdade, se eu for buscar na minha memória eu só lembro de você assim, como cor.
Não se preocupe, isso tudo é apenas um bilhete, eu sei que você está sem tempo agora, mas só queria dizer que ta tudo bem. Que as dores da vida foram purgadas na arte. Mas você já sabe disso, não é? Acho que você percebe agora que a morte não é para ajustar nossos erros, mas para perceber que já os ajustamos em vida.
Eu não sei nada disso, professor, só estou falando aquilo que você falaria para mim.
Eu espero não ter te decepcionado por não me sentir mais um possível artista. Eu ainda tenho chances? Mesmo ríspido eu sinto que você foi o único quem acreditou em mim.
Mestre, você foi o primeiro. E justo por isso eu não quero estragar nada fazendo uma pretensa homenagem ou qualquer coisa mais floreada, só quero poder dizer um até logo.
Eu sei que agora você me escuta.
Vou manter as saudades de sempre, professor.
Muito obrigado
Do seu aluno, que era pra você: "um merdinha de 14 anos que já tem visão de artista"
terça-feira, 13 de maio de 2014
Cenas De Um Casamento, por Bergman.
Vou compartilhar um texto escrito pelo Bergman, acerca de "Cenas de um Casamento". Ele fez o roteiro primeiro para televisão em seis capítulos, por isso no Círculo Do Livro tem um mini-texto feito por ele, no qual é armada uma tentativa de situar cada episódio e como eles funcionam como um todo. Creio, que após essa entrega de processo criativo feita pelo próprio Bergman, seria inútil – até mesmo cansativo –, uma tentativa de crítica que partisse de mim. Imagino que nem todos tenham acesso a esse livro, então resolvi compartilhar aqui os comentários de Bergman que acredito serem os mais singelos, objetivos e iluminadores sobre sua obra.
Para que o leitor desprevenido não se desoriente no texto, acho que, contra o meu hábito, devo fazer aqui um comentário às seis cenas. Aquele que tomar estas diretrizes como desconsideração deverá saltá-las.
Primeira cena; Pureza e pânico: Johan e Marianne são filhos de convenções precisas e formados dentro da ideologia da segurança material. Jamais consideraram os princípios burgueses em que vivem como restritos ou falsos. Organizaram-se dentro de um padrão de vida que estão dispostos a transmitir para os descendentes. Suas atividades políticas anteriores são mais uma confirmação dessa ideia do que uma contradição.
Na primeira cena, eles apresentam uma imagem maravilhosa do que seria um casamento quase ideal, um casamento que, ainda por cima, confronta-se com uma ligação infernal. De uma maneira tranquila e equilibrada, eles se sentem orgulhosos, acham que montaram tudo da melhor forma possível. As soluções de praxe e os chavões do estilo sussurram em nossos ouvidos. Peter e Katarina sobressaem como insanos dignos de pena, enquanto Johan e Marianne organizaram toda a sua vida na melhor das formas e vivem no melhor dos mundos. No final da cena, ambos são vítimas de uma pequena adversidade. Esse acontecimento coloca-os diante de um impasse. Surge uma pequena ferida superficial que se fecha, deixando uma cicatriz, mas por baixo da cicatriz, ainda existe infecção. Pelo menos, foi dessa forma que eu pensei a coisa. Se alguém pensar de maneira diferente, também está bem.
Segunda cena; A arte de varrer para baixo do tapete: Ainda continua tudo idealmente bem, quase grandiosamente bem. Surgem pequenas preocupações, contornadas num ambiente jocoso. Apresentam-se as profissões, os ambientes de trabalho. Aparece uma certa angústia em Marianne. Ela ainda não a consegue definir, e muito menos consegue compreendê-la, mas institivamente sente que existe algo de errado entre ela e Johan. Faz um ligeiro esforço, não muito convincente, para tapar a rachadura nebulosamente suspeitada. Johan recebe também uma série de telefonemas misteriosos. À noite, depois de terem estado no teatro e terem visto Casa de bonecas de Ibsen – o que é que eles poderia ter visto de diferente? -, surge uma atmosfera de desentendimento que ambos tentam superar e que, em última instância, acaba varrida para baixo do tapete.
Terceira cena; Paula: Aí cai a guilhotina, Johan comunica de forma bastante brutal que está apaixonado por outra mulher e que pretende uma separação. Apresenta-se cheio de ânsia vital de ação e oxidado pelo egoísmo eufórico do novo amor. Marianne sucumbe, fulminada. Fica totalmente à deriva. Em alguns minutos, ela se transforma diante de nossos olhos em uma ferida sangrante e convulsiva de humilhação e desorientação.
Quarta cena; Vale de lágrimas: Veem-se novamente depois de bastante tempo. Para Johan começou tudo a ficar um pouco para o lado do inferno, embora nada se note. Pelo contrário. Para Marianne verifica-se um começo de recuperação, embora muito fraco e marcado por tudo o que se passou entre eles: a dependência perante Johan, a solidão contaminada, a vontade de que tudo volte a ficar como antigamente. Seu encontro é doloroso e desajeitado. Na mistura de reconciliação e agressividade, aproximam-se reciprocamente durante curtos momentos através do isolamento e do desprendimento. Tudo, porém, ainda está dolorido, infectado, roto. É uma cena verdadeiramente lamentável e triste, devo dizer.
Quinta cena; Os analfabetos: É agora que explode o verdadeiro inferno. Marianne começa a ficar recuperada e Johan fica cada vez mais afastado da realidade. Ambos têm a boa ideia de, em conjunto, requerer o divórcio e de utilizarem o mesmo advogado. Para assinar os papéis do divórcio encontram-se, novamente, uma noite, no escritório de Johan. De repente, toda carga vai pelos ares e surgem, arejando-se, todas as agressões contidas durante anos, todo o ódio, todo o sofrimento e toda raiva recíprocos. Entram num processo gradual de desumanização e acabam por ser realmente desagradáveis e se portarem como dois loucos que apenas têm um pensamento, principalmente o de maltratarem-se um ao outro o mais possível, tanto corporal como espiritualmente. Através de seus esforços, eles acabam até mesmo por se tornarem um pouco piores do que Peter e Katarina, da primeira cena, já que esses de qualquer maneira têm uma certa rotina no seu inferno e são por assim dizer mais profissionais em seu rancor. Esta suprema temperança, nem Johan nem Marianne ainda conseguiram aprender. Eles querem pura e simplesmente destruir-se um ao outro. E quase chegam a ser bem sucedidos nessa ambição.
Sexta cena; No meio da noite, numa casa escura, em algum lugar do mundo: Nesta altura, imagino que dois novos seres humanos começam a renascer de toda essa destruição. Talvez isso seja demasiado otimismo, mas não posso evitar que se tenha tornado assim. Tanto Johan como Marianne passaram por um vale de lágrimas e tornaram-se rico em fontes. Ambos começam um período de realfabetização em matéria de conhecimento de si mesmos, se é que, na realidade, podemos expressar nosso pensamento deste modo. Não é apenas resignação. Trata-se também de amor. Marianne pára e senta-se pela primeira vez para ouvir sua mãe, pessoa complicada. Johan vê reconciliadoramente a sua própria situação e é bom para Marianne de uma maneira inédita e adulta. Tudo, porém, ainda é desorientação e nada se tornou melhor. Todas as suas relações estão embaraçadas e suas vidas baseiam-se, incontestavelmente, num montão de feios compromissos. Mas, de qualquer maneira, eles vivem agora num mundo de verdades e de realidades, de uma forma completamente diferente em relação ao passado. Pelo menos, acho eu que sim. Não existe, de qualquer forma, uma solução por perto, e, assim, uma espécie de verdadeiro happy end não houve. Embora tivesse sido divertido chegar a um tal happy end. Se não fosse por outra razão, pelo menos teria servido para irritar as pessoas artisticamente ultra-sensíveis que por aversão a esta obra, completamente compreensível, vão começar por ter vômitos estéticos já na primeira cena.
O que é que resta mais para dizer? Este opus levou três meses para ser escrito mas representa um período bastante longo da minha vida em experiência. Não estou certo se teria sido melhor ser ao contrário, embora talvez tivesse ficado mais refinado. Eu senti uma espécie de dedicação por esses seres humanos durante todo o tempo que trabalhei com eles. Tornaram-se bastante contraditórios, por vezes infantilmente angustiados, outras vezes bastante adultos. Dizem que um bom bocado de coisas insignificantes por vezes dizem algo de importante. Mostram-se angustiados, felizes, tolos, bons, inteligentes, bem comportados, delicados, zangados, tolerantes, sentimentais, insuportáveis, e amoráveis. Tudo de uma vez só. Agora vamos ver como é que vai sair.
Farö, 28 de maio de 1972.
Ingmar Bergman
Extraído de:
BERGMAN, I. Cenas de um Casamento. São Paulo: Círculo do Livro, 1972.
quinta-feira, 8 de maio de 2014
Amor de Infância
“Camilo, eu vou sair do hospital bem rapidinho. Eu
vou na sua casa pra gente brincar. Ass: Guilhermo”
Guilhermo saiu do hospital morto, nunca brincou em
minha casa e eu nunca mais ouvi sua voz.
Nós tínhamos cinco ou quatro anos, dois moleques
bagunceiros que gostavam das mesmas coisas e dividiam as mesmas namoradas na
creche. Governávamos o pátio do recreio, vivíamos grudados e estávamos no
inicio do aprendizado sobre ciúmes.
Quando Gui Gui ficou doente meu pai, muito sem
jeito, me levou para visita-lo. Antes de entrarmos no quarto, ele virou e
disse: “Filho, o Gui Gui tá muito dodói, tá usando roupa de hospital e por
conta do tratamento ele ficou carequinha. Então não fica reparando e nem
comentando isso, tá bom?” Mas crianças se entendem e não precisam desse código
de etiqueta que os adultos inventaram. Fora que a saudade que eu tinha do Gui
Gui era tão grande que não conseguia nem pensar no estado dele.
O sol estava bonito naquela tarde e fazia todas as
pedrinhas místicas na janela brilharem. Guilhermo me explicou para que cada uma
servia, e até hoje penso que foi com ele que começou a minha paixão pelo
universo oculto, místico.
Quando ele morreu ficaram, de muitas, três
lembranças bem marcadas na minha cabeça: a do marcador de livros com o
recadinho de que ele melhoraria, a visita ao hospital e da sua casa vazia, sem
ele, sem sol.
Essa última lembrança da casa eu até hoje não sei
dizer se foi um sonho, mas lembro de mim sozinho andando pela casa, pela beira
da piscina, em frente à escadaria... Lembro de um dia muito nublado, muito
silencioso, muito triste. Não tinha Gui Gui na casa e eu também não o
procurava, só tentava lembrar e guardar lembranças.
Gui Gui morreu como meu primeiro amor. Talvez até
comentem: “Nossa, você se descobriu gay cedo né?” Não sei dizer. Eu descobri o
amor muito cedo, aquele amor bonito de criança. Nós não víamos necessidade em
nos classificar e nem dar nomes pra relação, a gente vivia junto, só isso. Me
descobri também muito homem por ver, sentir e encarar aquela morte da forma que
encarei.
Confesso sentir saudades até hoje do Gui Gui, mesmo
depois de Leonardos, Edsons, Murillos, Fernandos, Gustavos e um Caio. Sinto
saudades da imagem que guardei dele, daquele menino que estava sempre do meu
lado, que me queria sempre em sua casa e que não pensava em nada que não me
incluísse.
Talvez Gui Gui seja hoje um anjinho que me cerca, um
cupido ciumento que só permite poucos namoros em minha vida.
Espero que depois que ele “melhorou” e saiu do
hospital ele tenha ido à minha casa e saiu do hospital ele tenha ido à minha casa e
brincado muito comigo enquanto eu pensava estar sozinho. E espero que além de
estar me observando, ele também esteja aguardando o dia em que eu vá retribuir
a visita.
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